Uma investigação sobre Monga, a mulher macaco

10
A transformação sempre esteve embalada em uma atmosfera de medo, atração, repulsa e hipnose

Nos anos 70 e 80, um fenômeno surreal nos parques de diversões aterrorizou e encantou crianças e adultos em diversos locais do Brasil. Não adiantava se benzer, virar a cara, ter medinho ou ficar de olhos fechados; a transformação, o mistério e os enigmas  da Monga – a mulher macaco – sempre estiveram embalados em uma atmosfera de medo, atração, repulsa e hipnose.

Me lembro perfeitamente quando vi a Monga pela primeira vez no playcenter em 1975. Fiquei encanadíssimo diante da transformação. Uma moça linda metamorfoseada em um macacão era algo que não tinha explicação. Vire e mexe lá estava eu voltando ao parque para tomar outros sustos e rir do desespero alheio. Todos sabíamos que era impossível tudo aquilo ser verdade, mas na dúvida, era sempre melhor sair correndo que ficar com a macaca.

Recentemente vim a conhecer a maior expert em Monga no planeta, madame Cris Siqueira. Há décadas  Cris se jogou na estrada e frequenta dezenas de sideshows e freakshows (circos mambembes e itinerantes que circulam pela EUA com suas aberrações). Sua pesquisa e paixão a levaram a trabalhar no Jim Zajicek’s Big Circus e realizar o documentário “MONGA”. Diante de tanta empolgação e paixão, fomos abduzidos pelo Cris para conhecer uma dos últimos espetáculos da Monga em solo tupiniquim.

Como num passe de mágica nos descolamos para  a lagoa da Pampulha em BH onde encontra-se o Parque Guanabara. Instalado há mais de 30 anos o parque possui as tradicionais atrações: roda-gigante, carrossel, trem fantasma, ciclone, floresta encantada e  a nossa motivação e objeto de desejo, a MONGA. O dia estava ensolarado e a criançada se esbaldava nos brinquedos. Excitadíssimos fomos magnetizados por uma majestosa fachada riquíssima de adereços.

Monga do Playcenter
Monga do Playcenter

Admirávamos embevecidos as  silhuetas em negrito nas laterais e o imenso rosto do gorila com suas mandíbulas abertas e dentes pontiagudos quando o time que orquestra o espetáculo da Monga  se aproximou. Claudio, o gerente do local, interage com sua duas mirabolantes “mongas” Rosileni e Rayane. O show da Monga acontece há cinco anos no Parque Guanabara e os mineiros adoram o espetáculo. A duração da transformação é de 4 minutos e dependendo do fluxo do público eles realizam em dias de movimento uma média de 15 espetáculos por hora. O trabalho é pesado. Com o parque aberto 8 a 9 horas são mais de 120 shows diários. Gente querendo correr da macaca é o que não falta. Cris não para de investigar e bisbilhotar a instalação.

Pergunta sobre detalhes cênicos, performance e participação do público. Emocionada, revela que esta estrutura foi criada e montada pelo artista Romeu Del Duque, responsável pela Monga original do Playcenter que durou de 1973 a 1986. Segundo a Cris o nome Monga ficou conhecido de verdade a partir dos anos 70, através do Playcenter com uma unidade fixa em SP e outra itinerante, espalhando a fama da Monga pelo país. A mulher macaca também é conhecida como Conga, Samira, Murza, Zamorra, Gabora, Natasha ou apenas “Gorilla girl”.

Existem muitos indícios que a magnânima Monga tenha sua origem em solo brasileiro. Sim a Monga é nossa
Existem muitos indícios que a magnânima Monga tenha sua origem em solo brasileiro. Sim a Monga é nossa

Existem muitos indícios que a magnânima Monga tenha sua origem em solo brasileiro. Sim a Monga é nossa. Da sua cartola mágica, Cris retira a espectral Lurdez da Luz. Lurdez  é nossa Monga itinerente e autora da música-tema do documentário. Na porta de entrada do castelinho da Monga é entoado um chamado do além –“ Venha presenciar a fantástica transformação de uma jovem mulher em criatura das trevas: o terrível gorila canibal! Tudo começou quando nossa infortunada jovem participava de um safári no coração da selva africana.

Em uma impenetrável noite de lua cheia, a maldição da besta fera se abateu sobre a inocente moça. Assista a mais assustadora transformação que você já ousou imaginar. Mas, cuidado! Apenas os mais corajosos conseguem viver a experiência e manter sua sanidade. Venha acompanhar, passo a passo, como é possível que uma bela jovem, possuída pela maldição, venha a transformar-se em uma criatura apavorante. A fera indomável estará diante dos seus olhos incrédulos. Muitos pesquisadores tentaram descobrir qual é o mistério existente por trás da incrível transformação, mas todos os esforços foram em vão.”

Como um enxame de abelhas, uma multidão de crianças e seus respectivos pais entram em fila. Uma simbiose de curiosidade e medo sacode os enfileirados. Abre-se a boca do Gorila e todos se lançam para o bizarro reduto da Monga. Na diminuta estrutura a platéia se espreme. A voz do MC do além ecoa dizendo para todos se preparem para a transformação, o suspense é rachado quando percebo ao fundo nossa Lurdez da Luz dentro de um cubículo fechado por grades.

Como uma centopéia Lurdez se insinua para a platéia com seu biquíni.  A metamorfose começa lentamente. Dentro da câmera semi-escura a Monga começa a ficar peluda, suas mãos ficam monstruosas e a platéia se agita. Ela está parcialmente metade mulher e metade gorila. Os  efeitos especiais são requintados. Parte do público se caga de medo e outros dão risadinhas contidas.

O MC grita: “Fera, desperte”, numa fração de segundos o gorilão solta um urro pavoroso. Salta da jaula e vai prá cima ameaçando a plateia. Sua aparição é um Deus nos acuda.

Fico congelado na extremidade. A encenação é impecável. A trilha sonora é superada por gritos, berros, gemidos e corre-corre. No embalo, o MC acalma a Monga, e sua fúria é controlada. O gorilão retorna para dentro da jaula e num átimo de segundo volta a normalidade.

O espetáculo é rapidinho, mas os efeitos colaterais permanecem. Nos bastidores, peço encarecidamente ao organizador se posso me transformar em Monga. Um sonho que permaneceu incubado em meu DNA. Recebo sinal verde. Tiro da mochila minha bata de Fred Flinstone e vou para o cubículo.

"Sou absorvido pela atmosfera e fico descontrolado"
“Sou absorvido pela atmosfera e fico descontrolado”

Sou absorvido pela atmosfera e fico descontrolado. Um energia das entranhas da natureza me domina. Parece brincadeira mas entro no transe da Monga e sofro a mutação genética. Viro a macaca. Não mordo ninguém e como a Monga original volto rapidinho ao meu estado de gonzonlino.

No lado de fora, Cris freneticamente, esclarece que este truque de mágica  (espelhos, luzes que criam a ilusão de uma metamorfose em cena) foi criado na Inglaterra no século XIX e foi batizado como Pepper’s Ghost. E finaliza: Eu acredito que algumas mulheres tenham o poder de se transformar em macaca. Para mim estas são as Mongas verdadeiras, não as mulheres com hypertrichosis (excesso de pelos no corpo), as mongas verdadeiras andam disfarçadas de Mongas falsas. Você acha que tem lá o show montado, fantasia de macaca, mágica de palco, mas não tem nada disso, tudo fachada. Só que não dá para saber quem é quem. Se eu topar com uma Monga verdadeira, vou fingir que é falsa. Do mesmo jeito que não revelo o segredo da transformação, não vou revelar o segredo delas – Fico naquelas, quem será uma monga verdadeira?

Siga @verissimoarthur