Minhas aventuras inesquecíveis na tour com o Planet Hemp

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Planet Hemp, formação atual

“Gosto muito de te ver Leãozinho/ Caminhando contra o Sol/ Tua pele , tua luz tua juuuubaaaaa/ Um filhote de Leão raio da manhã” Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrhhhhhhhhhhhrrrrrrrr (disco riscando) D2 – “Para, para, para. Porra, Zé, ficou louco, tá babando, enlouqueceu manééé”. Z. Gonzalez – “Qualé D2, o responsável por esta insanidade é o Arthur”. “Dá um tempo, Zeno”. “Diga lá rapaziada de Floripa. A parada é a seguinte, o Planet Hemp, apresenta a esquadrilha da fumaça”.

Uma multidão de mais de dois mil jovens usuários da Cannabis sativa se espremia em transe com a presença do sumo-sacerdote Marcelo D2 e os cardeais B-Negão e Black Alien entrando no palco enfumaçado  para delírio da moçadinha danoninho surfer de Florianópolis.

Estamos no início da turnê nacional do Planet Hemp. A força e a pegada da banda parece uma divisão panzer tomando de assalto o Brasil de norte a sul. Não existe nada comparável no cenário do rock-hip hop brazuca. Pelas barbas de Netuno o que o Planet Hemp representa para o público é tudo aquilo que estava entalado na garganta, coração e sentimentos suspensos e bloqueados pelo sistema de opressão e maniqueísmo da sociedade. Isto tudo regido pelos meios de comunicação e principalmente pela manipulação das gravadoras em impor um tipo de música que deixa o cidadão brasileiro cada vez mais impotente e pasteurizado.

Ninguém que esteja atento com a guerra civil em que vivemos e que tenha um pouco de bom senso, suporta o lixo das pagodices, sertanoides e axé-shit que invadem as rádios, tvs e mentes com letras e melodias açucaradas e repletas de mensagens embrutecedoras. Graças a Jah, existe a porra-louquice e ousadia desta moçada obstinada, que põem a carranquinha para bater e que não levam desaforo para casa. Boas vindas para o Planet Hemp.

Estava dando um relax no tranqüilo  Marinas Hotel, na praia de Canasvieiras, abri um jornal local e fui lendo lentamente uma notícia deveras intrigante que dizia o seguinte: Florianópolis será tomada pelos federais a partir de Domingo, quando começam a chegar à cidade autoridades norte-americanas convidadas para o Primeiro Encontro Internacional sobre o Crime Organizado. Detalhe: Os assuntos temas são: corrupção, lavagem de dinheiro e combate ao narcotráfico e se realizará na Academia de Polícia em Canasvieiras, bem ao lado do hotel.

Ligo para o quarto de Black Alien que imediatamente entra em um surto paranóico achando que os federais estão filmando tudo o que acontece nos corredores e quartos do hotel. Como todo mundo sabe o pessoal do Planet teve muitos problemas com as autoridades há exatamente três anos atrás  em Belo Horizonte e Brasília onde ficaram encarcerados por vários dias. Porém eles são incansáveis. “Adivinha doutor quem está de volta na praça: Planet Hemp e a ex-quadrilha da Fumaça”.

No camarim da casa de espetáculos Lupus, em Floripa, D2 me convoca diante de todos os integrantes do grupo exclamando o seguinte:  “ O Arthur nesta noite é o debutante cabaço da Família, vai subir no palco e cantar “Quem tem seda”. Prontamente bati continência e fiquei em guarda.

Planet Hemp em 2000, foto de Epitácio Pessoa
Planet Hemp em 2000, foto de Epitácio Pessoa

O show corria solto e a molecada na platéia cantava todos os hinos da banda. A princípio fiquei em um cantinho no palco, filmando alguns detalhes . Lá pelas tantas já de tabela  com a fumantina terminal e com as turbinas engazopadas de cerveja, me desinibi e soltei a franga. Fui registrar as imagens em todos os ângulos . Derrubei guitarra, pisei nos cabos e atrapalhei o B-negão em seu cantochão. A galera delirava com as intervenções e solos de Rafael e os scraths de Gonzalez. Num flash rápido percebo D2 e Black Alien dando boas risadas e apontando para mim. Tinha chegado minha hora. “ Aí rapaziada hoje temos um convidado que vai cantar com  a gente Quem tem seda?” Larguei a câmera e catei o primeiro microfone, e sai fazendo jogral com a rapaziada. Delírio.

Podem botar fé, estava me sentindo um picadinho de Lux Interior (Cramps) com Flavor Flav (Public Enemy). Depois de duas horas de muita adrenalina e alegria a terapia havia terminado. A catarse e gestalt  do transe coletivo no show do Planet acalmara por completo a fúria da multidão de antes do espetáculo. No camarim uma multidão de fãs, puxa-sacos , catarinas, popozudas e jornalistas esperavam a liberação da entrada.

Aos poucos as figurinhas foram sendo selecionadas pelo fiel faz-tudo e segurança Anjinho que criteriosamente foi despachando a microbiagem e outros insetos.

Finalmente escuto a voz do baixista Formigão, em contraponto uma super lordose fazia evoluções de dança do ventre na sua formosa narina “ Porra Arthurzão se eu fumasse toda esta maconha que os fãs oferecem, eu já teria batido o recorde do Bob Marley junto com o Peter Tosh”.

Exauridos de tanta badalação a família Hemp seguia rumo ao hotel prensados em duas vans. Quando percebi depois de uma longa cochilada, que o dia havia amanhecido tomei um susto, me encontrava sozinho  no interior do veículo. Olho pela janela e decifro aonde estava estacionado, era um puterinho sem-vergonha intitulado de Boate Paradiso. A outra van com D2, Gonzalez, Lobato e outros integrantes seguiram para o Hotel para descansar, porém, a turma da fuzarca resolvera parar em um bordel fim de linha da ilha.

Ficamos descansando algumas horas no hotel em Imbituba depois de um show coalhado de gente . O pico era um engradado de madeira que parecia uma palafita de última geração. Estava com vôo marcado na parte da tarde de Floripa para São Paulo. Alguns integrantes da banda jogavam video-game em um telão na ala do restaurante do hotel varias rodadas de futebol e lutas de boxe . Zé Gonzalez  e Rafael mofavam em seus quartos. O bando inteiro curtia uma ressaquice crônica da noitada anterior.

Feliz da vida fui me despedir da rapaziada que se dirigiam para Lages onde fariam o show final da turnê. Não teve jeito fui raptado e induzido a continuar na aventura com o exército de Brancaleone. O argumento é que faltava na realidade vivenciar o aconchego da balada no bumba. O início do breviário da decomposição

Zé Gonzalez –  Imbituba, 6h30 da manhã, alguns minutos passados havia me despedido do meu velho tio (Arthur) ,  no ônibus me preparava para seguir 6 longas horas de viagem para o destino final de nossa mini-tour em Santa Catarina, quando a ressaca já estava pegando e quase caindo no sono, escuto vozes alteradas que vinham da frente do buzanga. Eram Lobato com seu saco de 30 cervejas seguido por Arthur e seu fiel escudeiro Christian . “Gonzalez hoje você não dorme” disse o tio e sentou-se ao meu lado. Oh Shit ! lá vamos nos outra vez . A demência da viagem parecia mais uma boate, um boteco ou coisa assim. Socorro, embalando com as rimas de Black Alien o velho cantava músicas tema de desenhos animados do fundo do baú como : Homem de ferro, Batman, Príncipe Submarino, e outras. E repetia incessantemente o velho lema do Planet “Aqui ninguém dorme”. Ressaca, ressaca, ressaca.”

Nunca havia estado em Lages que fica no coração de Santa Catarina. A população em sua maioria são de sangue alemão e italiano. O que me deixava intrigado é o enigmático jeito de ser da cidade. Parece  uma continuação da série Twin Peaks. As pessoas vivem em outro época. Meu cérebro tentava se entender porém o hemisfério direito e o esquerdo se desentendiam entre os planos frontal e temporal, entre tálamo e hipófise. Minhas fronteiras entre as células, membranas e glânglios seguiam pela medula espinhal ou medula óssea? Tentava prestar atenção nos processos mentais.

Tinha enlouquecido ou era o fatal efeito da ressaca para tanta desordem na cabeça. Mergulhado na mais profunda depressão fui tentar fingir de dormir no quarto do hotel decadente em que estávamos hospedados.

 

D2, mas mantenha o respeito
D2, mas mantenha o respeito

Depois de um longo H resolvi descer e procurar algo para comer. O clima de túnel do tempo persistia por todos os cantos da cidade. Desesperado, encontrei uma lanchonete década de 60 e tudo continuava Twin Peaks com Arquivo-X. No limite da tensão encontrei na recepção do hotel o pessoal indo para fazer o último espetáculo. Estava cismado e comentei com Gonzalez minha sensação de angústia diante das minhas reflexões e visões que havia observado pelas ruas.

Gonzalez espantado comentou que sentia algo muito parecido e que era melhor ficarmos calados para não aguçar um mal estar súbito com o restante da moçada.

“De todos os grandes enfermos, são os santos os que melhor sabem tirar partido de seus males. Naturezas voluntariosas, desenfreadas, exploram seu próprio desequilíbrio com habilidade e violência. Aí está toda a diferença entre o homem que compreende e o homem que aspira”. (E.M.Cioran)

Encontrava-me em um beco-sem-saída  a minha última opção de voltar para São Paulo havia novamente escapado no desértico aeroporto. Simplesmente o avião da Rio-Sul não podia pousar por que não existia teto , isto é as cabeceiras da pista estavam  encobertas de nuvens, uma voz soturna emitia a mensagem no saguão do aeroporto . Mentira , mentira o céu não tinha uma nuvem e estava totalmente estrelado. Tudo confirmava, as minhas previsões e suspeitas manifestavam que havia conspiração no ar.

Como fugir desta história estava condenado à perdição ou minha alma continuaria espiando este sufoco.

O único voo com vaga era para depois de dois dias, ou teria que ir até Curitiba (6 horas de bumba) para no dia seguinte embarcar anoitecendo para o meu destino.

Aguardei o fim do show e para surpresa e alegria de todos pegaria uma carona até São Paulo com o comboio do Planet Hemp. Foram as 14 horas de viagem mais longas já feitas por este urubu aposentado. No útero da minha casa consegui destilar depois de alguns dias de recuperação um mantra que correspondesse com a experiência de viajar com o Planet Hemp. Ressaca, ressaca, ressaca.