Um transe coletivo: vivi o êxtase e os flagelos do Festival Thaipusan, na Malásia

O costume tradicional é colocar no corpo 108 anzóis de aço, fisgados pelo peito, costas e rosto. A cerimônia é macabra

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Minhas entranhas encontravam-se num estado catastrófico. A mente era uma explosão contínua de pensamentos sinistros e escatológicos.  A viagem terminal de 35 horas, com uma paradinha na Europa de 2 horas, havia detonado meu sistema imunológico. Um extraterrestre esquisito passeava no meu organismo sem que fosse possível detectar a origem do mal-estar. Estava exatamente em Kuala Lumpur, capital da Malásia – uma cidade extremamente moderna em um país de desenvolvimento acelerado e desigual.

Minha primeira investida logo depois do check-in no mega-hotel futurista foi marcar uma massagem regenerativa para eliminar as toxinas e retirar na marra o alienígena que se instalara no meu organismo. Com o destino colaborando, em menos de uma hora uma chinesinha-malaia aplicava seus cotovelos, dedos e joelhos na carcaça deste destemido escriba.  Milagrosamente, a divina terapeuta restaurou minhas energias, e abri as cortinas do quarto do hotel.

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Tinha diante dos meus olhos duas das maiores edificações do mundo moderno dominando o cenário: as gigantescas torres gêmeas de aço conhecidas como Petrona Towers, com 88 andares distribuídos em 452 metros de altura. No outro lado, a presença marcante da imensa Torre Menara de comunicações, com 421 metros, tendo no topo um restaurante giratório moderníssimo.  O cenário é uma mescla do desenho animado Jetsons com a sofisticada decadência do filme Matrix.

A Malásia tornou-se independente da Inglaterra em 1957 e transformou-se no século passado num dos poderosos Tigres Asiáticos da economia mundial e com uma tecnologia avassaladora. Realmente é prazeroso de conhecer e ver o salto de melhoria e qualidade de vida nesses países que foram sugados e massacrados pelos colonizadores. Um exemplo notável e cirúrgico para os experimentados administradores, políticos e empresários brasileiros.

A população do país está por volta dos 31 milhões de habitantes. Em 2010, os malaios eram maioria: 67,4%; os chineses, 24,6%; e os indianos, 7,3%. O relacionamento entre as etnias é um mar de tranquilidade e equilíbrio. Muçulmanos, budistas, católicos e hinduístas transformaram a Malásia numa joia preciosa de tolerância religiosa.

Nosso objetivo era acompanhar os três dias de celebração do festival Thaipusan da minoria étnica Tamil, originária do sul da Índia. Todos os anos, entre os meses de janeiro e fevereiro, este espetáculo de fé e flagelação é celebrado na lua cheia. Sua importância é comparável às festas de Nossa Senhora da Aparecida e do Círio de Nazaré em Belém no Brasil. Segundo os livros sagrados e a mitologia Indiana, a Deusa Parvati, esposa do Deus Shiva (da destruição) entregou a seu filho Murugan, também conhecido como Subramanian, a lança invencível (vel) para aniquilar os demônios (asuras).

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O ‘creme de la creme’ do Thaipusan acontece a 15 km de Kuala Lumpur em um local de enigmática beleza natural, a imensa caverna BATU. Segundo os cálculos das autoridades à época, mais de dois milhões de pessoas visitam nos três dias de celebração. A maioria dos devotos e peregrinos se dirigem ao local para agradecer as bênçãos recebidas pelos pedidos pessoais: nascimento de um filho, melhora de saúde de um membro da família, dificuldades financeiras, problemas com cachaça e todo o rosário da decadência do ser humano é colocado a prova, no teste final da provação.

Como pagamento pela promessa ao milagre alcançado, os penitentes realizam o sacrifício de usar piercings, lanças e ganchos espalhados pelo corpo. Os mais impressionantes são as armações-parangolê que têm o nome de Kavadi. Estas instalações complicadas são feitas de metal e algumas ostentam imagens dos ídolos Hindus. A finalização da promessa é subir a sinuosa escadaria com seus 272 degraus e, no interior da caverna, encontra-se o templo principal de Murugan.

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Casais com bebes recém-nascidos carregam seus filhos em redes sustentadas por troncos de cana de açúcar. Muitas senhoras levam em suas cabeças moringas repletas de leite e mel. Famílias inteiras raspam suas cabeças em um ritual frenético prensados à beira do Rio Batu. A experiência de estar presente no turbilhão de uma massa compacta de seres humanos, suando, babando, delirando em um transe coletivo, subindo uma escadaria apertadinha e debaixo de um sol tropical lembra, com suas devidas proporções, o carnaval de Olinda e de Salvador. Ou você está completamente ligado ou totalmente desconectado.

A insanidade e a doideira têm nome, são os sujeitos que carregam os Kavadis. As cargas chegam a pesar de 40 a 70 quilos. O costume tradicional é colocar no corpo 108 anzóis de aço, fisgados pelo peito, costas e rosto. A cerimônia é macabra. Algumas lanças chegam a ter a grossura de um dedo com o comprimento de 1 a 2 metros. Outras menores de 10 a 15 cm são enfiadas nas línguas tornando impossível colocar a língua pra dentro da boca. Rito de passagem. Celebração de tempos imemoriais.

Os malucos penitentes não passam o sufoco sozinhos: familiares acompanham carregando cânforas em brasa e jarras com manjares. Muitos grupos de percussão tocam, cantam e dançam por todos os ângulos. Os que não estão em transe vão abrindo caminho carregando cadeiras, limpando o suor e o sangue dos parentes. Acompanhava a procissão lado a lado com os médiuns no transe coletivo.

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Observo uma senhora em completo delírio religioso. Descabelada e com a  boca e a língua tingidas de vermelho, dando gargalhadas e com os olhos girando. Completamente possuída e fazendo movimentos sensuais com a roupa colada ao corpo. Seus filhos e marido caminham feito carrapato explodindo de felicidade. Tento engatar uma conversa com o maridão. Cordialmente, o sujeito abriu um sorriso e reverberou muita felicidade e sabedoria. Disse que sua esposa detectara nos exames câncer nas mamas. A família entrou em crise e a tristeza instalou-se no lar. Fizeram promessas ao Deus Murugan para solucionar o problema. Uma semana antes de ir para o hospital novamente, uma bateria de exames de rotina para a cirurgia. Como por encanto, o milagre veio à tona. Absolutamente nada havia sido constatado. A fé e a força do divino manifestaram-se no corpo da senhora. Se um ocidental caísse de paraquedas ou, mesmo você leitor camarada fosse transportado para o local pela primeira vez e observasse o que acontece, traduziria aquilo como um ritual satânico e histérico.

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Mas, para os malaios-hindus, é a mais autentica e vital purificação e conexão com os deuses. Aproveitei e saí fotografando o êxtase dos participantes. Animado me atirei no epicentro da romaria. A música explode nos alto-falantes e mantras são emitidos nos microfones. Conectados aos anzóis e ganchos que são perfurados nas costas dos médiuns, imensas cordas de nylon (igual às cordas do varal para secar roupas de nossas casas) de variadas cores. Um grupo de guerreiros imensos sobe a escadaria empurrando quem está pela frente.

Chego junto. Ligo a câmera e, sem querer o flash dispara. Faço uma das maiores besteiras da minha vida. Devido à luz do maldito flash, o gigante minotauro é tirado do transe. O cara me olha sedento de ódio e sai correndo atrás de mim em meio à algazarra. Como um bólido me lanço pelo meio do mato. Tremendo de medo, fico na moita por um bom tempo, bem miudinho. Que roubada.  Voltei para a celebração com um olhar panorâmico de 360 graus. Estava exaurido e com uma fome desesperadora.

Minha primeira impressão no início do Thaipusan com o advento de flagelo e sofrimento das pessoas era repleta de preconceito e babaquice. No grand-finale, todos estão no festival na mais absoluta felicidade e purgando seus pecados e promessas. A sincronicidade reverbera por todo o ambiente. Existe uma fina sintonia espiritual. A lua cheia, a caverna, o rio, a montanha e a multidão complementam meu quebra-cabeça. O que ainda me persegue em sonhos até hoje é o gigante bigodudo correndo atrás do meu esqueleto. Socoooorroooo. O cara está na minha cola.

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