Meu encontro notável com Cesária Évora em Cabo Verde

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Meu encontro notável com Cesária Évora em Cabo Verde

A conversa flutuava na encruzilhada entre o continente africano e o Brasil. Distante 2.600 quilômetros de Natal, no Rio Grande do Norte, e a menos de 445 km da fatia ocidental do Senegal na África, o arquipélago de Cabo Verde é um oásis de tranquilidade e “morabeza”. Absorvia e tentava decifrar o significado da palavra morabeza. O grande escritor cabo-verdiano Germano de Almeida explicava que morabeza possui uma infinidade de possibilidades. Fiquei naquelas, sem entender.

Germano emendou outros enigmas: “morabeza não tem uma tradução ou explicação, você tem que senti-la, degustá-lá e experimentar a sensação”. Um personagem de outra película e com imensos dreadlocks servia uma suculenta cachupa de peixes (tradicional prato de Cabo Verde que, além da peixada e temperos, vem com um terço de feijão branco e dois terços de milho).

Porções de legumes, coentro, pimenta, milho e feijão são gentilmente colocados diante dos meus sentidos. Escutava com admiração e respeito a conversatina prazerosa que Germano habilmente declamava em uma mistura de creole e português. Traduzi com a boca cheia que morabeza tem um tanto de hospitalidade, desbunde e outro tanto de Satori. Germano caiu na gargalhada.

Mudou de assunto abruptamente. Declamava e se auto-intitulava o maior “bundólogo” de Cabo Verde e do Senegal. Fiquei na minha. Perguntou sobre as mulheres brasileiras. Queria saber sobre as virtudes e beleza da mestiçagem tupiniquim. Germano, animadíssimo, chamou duas sobrinhas que se encontravam na cozinha do restaurante para cantar uma canção popular cabo-verdiana.

Esta cena desenrolava-se na véspera de Natal na cidade de Mindelo, capital da ilha de São Vicente, uma das dez ilhas do arquipélago. Quando as moças surgiram uma corrente misteriosa instalou-se no ambiente. Elas eram de outra dimensão. Lindas. Duas panteras, uma de olhos de jabuticaba e a outra com olhos verdes. Cantaram uma canção profundamente melancólica que mais parecia um blues arcaico de Muddy Waters. Ao final, Germano apresentou as garotas e acrescentou que aquela música era do compositor B.Léza, tio da magnífica cantora Cesária Évora.

Cesária Évora
Cesária Évora

Olívia, a beldade de olhos de jabuticaba esbanjava magnetismo e arremessou dizendo que Cesária encontrava-se em Mindelo e que naquele instante estava indo à casa dela levar alguns temperos e legumes. Entrei em transe. Fã de carterinha da cantora, arrisco ser convidado. Olívia pegou no meu braço e lá fomos nós para a casa de Cesária Évora.

Conhecia a vida da diva e possuo alguns discos. Nascida em Mindelo no dia 27 de agosto de 1941, “Cize” é a  eterna musa dos pés descalços. Faz parte do panteão das divinas Billie Holiday, Amália Rodrigues, Lata Mangeshkar, Edith Piaf e Ângela Maria. Sua voz é singular, exótica, hipnótica e de outras esferas. Existe um culto planetário ao canto e lamento do blues africano de Cesária Évora.

Colei na jugular de Olívia. Fomos entrando sem cerimônia e, quando fui apresentado a Cize (Cesaria), ela, fulminante, me tascou um beijão. A casa estava em grande celebração. Cesária cantava “mornas” e “coladeras”, ritmos tradicionais do arquipélago. Muitos músicos tocavam seus instrumentos. Uma imensa “jam session” desenrolava-se no músculo cardíaco da residência. A casa era um entra e sai de gente.

A diva Cesária Évora
A diva Cesária Évora

Na minha presença e sentadinha ao meu lado, Cesária exclamava que sua casa é um lugar de trânsito. Que desde pequena ouvia a cantora brasileira Ângela Maria. Uma de suas grandes lembranças foi de ter conhecido pessoalmente no Brasil Ângela e que cantaram algumas canções juntas. Dançava, comia lagosta e bebia sem parar. Mirava para mim com um olhar enviesado “tipo” Jean Paul Sartre, o filósofo existencialista francês.

Sobre o Brasil disse que alem de Ângela, admirava profundamente Gal Costa, Marisa Monte e Caetano Veloso. Insistia com as pessoas que gravitavam em suas palavras que Caetano possuía o néctar da imortalidade. Mostrou-me uma série de fotos, poemas e dedicatórias. As horas transcorreram como se tivesse um tempo próprio. A visita foi fascinante, indescritível. Cesária uma anfitriã majestosa… Cesária Évora faleceu no dia 17 de dezembro de 2011.

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