Rajastão: festival de Pushkar tem corrida de camelo e campeonato de bigode

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O visual uniforme e monótono do deserto como moldura intensifica o patchwork de turbantes, sáris, flores, joias, tatuagens, lixo, vacas, camelos e adereços que explodem pelas colinas. Um caleidoscópio de visões desafia meu equilíbrio no caldo grosso da celebração. Os personagens e o cenário parecem pertencer ao clássico As Mil e Uma Noites adaptados a um freak show terminal.

A lua cheia derrama cachoeiras de ambrosia lunar no sagrado lago da medieval Pushkar. Representantes das tribos nômades do Gujarat, Harayana e Punjab do Rajastão, comercializam seus animais. Cabras, cavalos e, principalmente, a estrela fulgurante da megafeira: SUA EXCELÊNCIA, O CAMELO.

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O êxodo das manadas, ou melhor, cáfilas de camelos e seus pastores, é uma história milenar com rotas migratórias que desafiam estatísticas e relatos de viajantes. Os pastores fazem igualzinho a seus tataravovozinhos: organizam-se com meses de antecedência deslocando-se pelo deserto do Thar. A meta é chegar a tempo do período da Kartik Purina (mais conhecida como Lua Cheia de Novembro) para vender, trocar, ou comprar seus amados e fiéis animais de corcovas. Lendas, mitos, parábolas, ciganos, turistada e um megaparque de diversões fazem o espetáculo no Pushkar Fair.

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Deslizávamos pelas colinas fotografando, filmando e acompanhando as negociações dos criadores de camelos. Dentes, cascos, olhos, orelhas (ah, que orelhas graciosas) e corcovas são supervisionados com precisão cirúrgica. Na maravilhosa obra Lugares Desertos, de Robyn Davidson, a autora descreve que os pastores do deserto são chamados genericamente de Rabari. Os raikas são uma subcasta específica de criadores de camelo, e eram eles que estavam em nossos caminhos. Suas origens perdem-se pelas ondas migratórias da humanidade. As mesmas pegadas invisíveis são as dos camelos nessas regiões. Enigmas.

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Com a cabeça e o corpo desgastado pelos raios de sol, suando gotas imensas, fomos convidados milagrosamente por um pastor a escutar um pouco das lendas e histórias de seu povo. Tínhamos mais de dois quilômetros de pernada pelo deserto até nosso hotel, então, sabiamente, resolvemos dar um tempo. Jogamos nossos cansados esqueletos na sombra dos tratores e carroças em meio a uma espessa fumaça de excremento de cabra e camelo. Nossos anfitriões preparavam a comida e aqueciam água para uma rodada de chá.

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Chamava a nossa atenção a elegância dos homens do deserto com seus brincos, anéis, bigodes, turbantes e fala mansa. As mulheres ficavam em outra sombra dando risadinhas do tipo “hihihihi” e cobrindo seus rostos a cada olhada dos matutos brasileiros.

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Eu acompanhava dois raikas tosando com muita habilidade o corpo esguio de um camelo. Faziam diagramas bacanudos e desenhavam carrancas sorridentes no bundão do dromedário. Phagu Singh, o raika que nos recebia, movimentava suas mãos cobertas de anéis como um napolitano rajastânico. Phagu hipnotizava a plateia. Dançava, cantava e contava histórias mitológicas sobre seu povo. Uma delas ficou engavetada feito mantra na minha memória. A lenda diz que deusa Parvati (esposa do deus Shiva) criou o primeiro camelo a partir de um punhado de barro. Ela de muitas maneiras tentava controlar e domesticar o animal. Não conseguia. Pediu ajuda a Shiva que, rapidamente, criou o povo raika com pedaços da sua própria pele e gotas de seu suor.

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A camaradagem dos nômades é contagiante. Comemos um pratão com uma lentilha chamada dahi, batata, quiabo, masala e arroz com muita pimenta. Um chá preto com leite de camelo completou nossa refeição. Refeitos e alimentados, seguimos o turbilhão da estrada principal e entramos na confusão, na Índia caótica e sagrada. Uma batalha sensorial épica de encantadores de serpente, ciganos, saddhus, ilusionistas, crianças fantasiadas de deuses, tatuadores e vendedores ambulantes.

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Na Camelolândia, cabem macacos dançarinos, eunucos e rodas-gigantes assassinas. Somos conduzidos no espreme-espreme da multidão para um estádio aberto onde são realizadas as competições mais doidas. Corridas de camelos, lutas, shows de danças, o maior bigode do Rajastão, mulheres carregando potes de barro na cabeça e concursos de beleza de dromedários. Nos arredores do estádio, lojas e butiques vendem bugigangas e adereços para embelezar os animais.

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Este milenar festival de Pushkar é considerado a maior feira de camelos do mundo e realiza-se simultaneamente à festa religiosa da Lua Cheia. Além dos milhões de hindus que peregrinam para o evento, milhares de turistas ocidentais aventuram-se para conhecer um pouco do lado B da Índia. O zoológico de estrangeiros é uma atração à parte. Idosos, caretas com bermudões sobre os umbigos, fotógrafos, antropólogos, clones de nagas-babas e muitos jovens. Na cidade sagrada é proibido o consumo de bebidas alcoólicas e o de carnes de animais, peixes e aves. O que é tolerado é a mistura de haxixe e tabaco entre os sadhus.

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A pequena cidade de Pushkar é a única em toda a Índia onde o deus Brahma (o deus da criação) é cultuado e reverenciado. Na entrada do templo de Brahma e no seu interior, a fé e a devoção assemelham-se profundamente com a festa da padroeira brasileira, Nossa Senhora de Aparecida. Diz a lenda que Brahma deixou cair uma flor de lótus no deserto e, da flor, brotou o povo, o lago, a cidade e a vida em Pushkar.

O banho ritual é realizado ao nascer do sol e seus efeitos benéficos limpam os pecados dos penitentes. Devotos e peregrinos indianos banhavam-se e rezavam com seus véus, sáris e tecidos supercoloridos. Particularmente, eu queria mesmo era galopar de camelo.

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Consegui alugar um camelo turbinado e treinado para competições. Recebi as devidas informações de como conduzir o animal e de tomar cuidado com a galera. Não era a primeira vez que eu montava em um camelo, em outras viagens pelo deserto havia estado em safáris pela fronteira do Paquistão. Mas Raghu, o nome do meu novo amigo corcovado, era especial. Quando subi no mamífero de dois metros e meio, ele saiu em disparada. Trotava com muita desenvoltura. Dominei o bichano e saí com meu camelo alado, voando pelos barrancos e moitas. Seu gingado me projetava para trás, para cima e para os lados. No ritmo embalado, a sensação é igual à que experimentamos em um cavalo. Quanto mais o animal acelerava, seus aparentes defeitos desapareciam. Passeamos um par de horas e ficamos encantados com sua leveza e elegância. Na despedida, Raghu emitiu uma série de grunhidos e gemidos intraduzíveis. Gamei.

4- Cambio

Segundo o cameleiro, o animal estava feliz e explicou que o sentido mais desenvolvido do Camelus dromedarius é a audição, sua vista é fraquinha e o olfato uma lástima. Parece brincadeira, mas em uma corrida entre cavalo e camelo, nas longas distâncias, quem sempre vence é o camelo. O animal pode correr durante 16 horas direto e fazer até 140 quilômetros por dia (sem gasolina, álcool ou biodiesel).

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O sol começava a se esconder no horizonte e o calor desgastante era sobreposto por uma brisa leve e refrescante. Chegamos na entrada do parque de diversões. A música estourava as caixas de som. Engavetados entre as rodas-gigantes, vários espetáculos de mágicos, contorcionistas, malabaristas, aberrações e excentricidades espumavam nos cartazes alucinantes. O espetáculo das pinturas e faixas das atrações é fascinante. Art pop bruta, sensorial, cut-up de lord William Burroughs com filme de Tim Burton. Ficamos perplexos diante das cores e do realismo sobrenatural da exposição dos artistas anônimos indianos. Tentei comprar uma das faixas. O big boss do pedaço queria módicos 2.000 dólares na menor das pinturas. Na vontade, aproveitei e fotografei os cartazes.

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As divindades conspiravam a nosso favor. Um emaranhado de pessoas espremia-se nas arquibancadas acompanhando as competições. Chegamos no início da disputa do maior bigode da Índia. Participavam oito competidores. Fotógrafos de todas as partes do planeta aproveitavam a cena surreal. Sentei-me ao lado do campeão e virei seu assistente esticando pelo lado esquerdo seu imenso bigode de mais de três metros. Pelas barbas (bigodes) do profeta!

Na sequência, acompanhei a final da corrida dos camelos. Disputas de cabo de guerra entre hindus e ocidentais, corridas com potes de barro na cabeça e a inusitada disputa para ver quantos homens um camelo pode carregar. O grande vencedor suportou nove pessoas. Um caldeirão musical ecoava por todos os lados. Canções religiosas, divertidas, épicas, mantras populares, hinduístas reverberavam de autofalantes. Músicos, DJs e cantores de todos os estilos entoavam suas preferidas em palquinhos nos templos, lojas e esquinas. Quando for ao Rajastão não vacile e mergulhe neste festival fascinante.

Arthur Veríssimo

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