Uruguai: Copa da Maconha tem fumacê e clima de chapação

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Maconha cultivada legalmente no Uruguai

Montevidéu, a capital do Uruguai, é um oásis de tranquilidade com seu ritmo suave e civilizado. Os uruguaios são bons de prosa, excelentes anfitriões e têm 98% de sua população alfabetizada. O Uruguai é um país com um pouco mais de 3 milhões de habitantes, onde a consciência de melhorar o estado e as instituições está presente no dia a dia e na liberdade dos cidadãos.

Montevidéu
Montevidéu

Sempre pioneiro em questões sociais, como divórcio, jornadas de trabalho e direito ao voto feminino em 1932, o Uruguai disparou na frente da vanguarda mundial na regulamentação do cultivo, distribuição e consumo da maconha.

O mundo está fascinado por este pequeno país da América do Sul! No inicio do mês de julho de 2017, foi autorizada por lá a venda de maconha em 36 locais comerciais. O usuário pode comprar 10 gramas por semana, mas precisa ser uruguaio ou residente legal no país, e também precisa preencher um formulário com as autoridades.

Arthur Veríssimo no Uruguai
Arthur Veríssimo no Uruguai

Há muito tempo borbulhava em mim o desejo de conhecer in loco o que acontece no universo canábico no Uruguai. No final do ano passado, fui convidado para desvendar os clubes e participar da 5ª Copa canábica em Montevidéu. Como todos sabem, o Uruguai está coladinho no Brasil. Em menos de 3 horas, desembarcamos na capital via São Paulo.

Casarão em Montevidéu
Casarão em Montevidéu

No final da tarde, já estávamos na porta de entrada de um castelo com imensas janelas, onde jardineiros, ativistas, curiosos, coletivos, cultivadores, jornalistas e pessoas de todos os cantos da América do Sul participavam do evento.

O interior do casarão era repleto de nichos, imensas salas, claraboias, lanchonete, expositores e cientistas. A densa fumaça dos diversos aromas de maconha espalhava-se e dominava os ambientes. O clima era de alegria e chapação, com troca de ideias, risadas e degustação de especiarias. O fumacê era incessante.

Arthur Veríssimo na 5ª Copa canábica
Arthur Veríssimo na 5ª Copa canábica

Nosso anfitrião, o carismático empresário e ativista, Marcos Alagorta, nos disse com serenidade e sabedoria: “Hoje em dia, o maior atrativo do Uruguai é a liberdade. Os jovens e os excluídos conseguiram suas ferramentas políticas para serem escutados. O dia de hoje é uma festa da cultura canábica, do mundo da plantação, do gourmet, dos cultivadores e, sobretudo, um intercâmbio de informações. A qualidade dos exemplares se supera a cada ano. Devido ao novo sistema, que antes não existia por aqui, agora podemos cultivar as plantas na legalidade”, comemorou.

Pergunto a Marco como é realizada a Copa canábica e como são feitas as pontuações de cada especiaria. Ele explica: “Temos as categorias indoor e outdoor, cultivador individual indoor e outdoor, e também os clubes indoor e outdoor. E depois, a categoria extrações, que se divide em duas: métodos tradicionais (haxixe, charas e kif) e técnicas novas. Os quesitos para as premiações são: qualidade, apresentação, textura e aroma”. O anfitrião ainda revela que os competidores cruzam as maconhas e obtém plantas maravilhosas, onde os temperos de uma se mesclam com as da outra, conferindo um novo perfume e potência.

Estufa de maconha
Estufa de maconha

Converso com Juan Vaz e Laura Blanco, os criadores da Copa canábica, e pergunto sobre o ex-presidente Mujica. “Mujica não fuma “beck” e nem sequer compartilha das nossas ideias sobre a marijuana, mas é uma pessoa que preza pela liberdade da gente também”. Laura ainda conta que, certa vez, Pepe Mujica disse à ela que não gosta do que eles fazem, mas que eles têm toda a liberdade de fazê-lo.

Com astúcia, ela ainda complementa: “o que nos usuários desejamos é poder plantar em nossas casas sem que nos considerem delinquentes, e também queremos poder compartilhar o plantio com nossos amigos sem termos que comprar em algum lugar”.

Uma das pessoas mais vibrantes da roda é a ativista e idealizadora da Expocannabis, Mercedes Ponde. Pergunto se um estrangeiro pode fumar um baseado na boa no Uruguai.  A carismática Mercedes esclarece: “um brasileiro ou qualquer estrangeiro que visite o Uruguai pode consumir cannabis, porque aqui o consumo é legal. Não tem nenhum problema fumar em qualquer parte área do país. Agora, adquirir a maconha só é válido para os uruguaios registrados”. Ela ainda explica que há 3 maneiras de adquirir a cannabis. Uma delas é participar de clubes de maconha, a outra é o auto-cultivo de até 6 pés, e a terceira é comprar em uma farmácia.

No zum-zum-zum do evento, recebemos o convite para visitarmos dois clubes, um em Mar del Plata e outro próximo ao parque Rodó, em Montevidéu.

Cultivo em estufa
Cultivo em estufa

CLUBE DE LA COSTA

Mar del Plata fica a 2 horas de Montevidéu. O ativista, cultivador e jardineiro Diego Avila, do clube canábico de la Costa, nos recebe com um sorriso de ponta a ponta e nos leva as suas estufas. Como num passe de mágica, Dieguito nos mostra suas plantas que exalam dentro da incubadora um aroma do além.

Diego nos diz que no clube os integrantes utilizam a maconha para fumar, fazer óleos e outros para fins terapêuticos. Vejo dezenas de plantas pelos jardins.  Segundo Diego, existem muitas variedades de maconha e, por lá, ele realiza diversos experimentos criando novas genéticas.  Fico intrigado e pergunto como é seu trabalho de jardineiro na incubadora: “Neste espaço, posso alterar o fotoperíodo das plantas. Quando os dias são mais longos, elas crescem, quando os dias estão mais curtos, elas florescem. Neste momento as plantas estão florescendo porque utilizo os “timers” que ligam às 4 da tarde e desligam às 4 da manhã”, explica.  Diego é um alquimista, trabalha com total dedicação e amor no cultivo.

Conhecendo um clube de maconha
Conhecendo um clube de maconha

CLUBE 4/20

De volta a Montevidéu, fomos conhecer o clube 4/20 localizado no bairro Punta Carretas, considerado o melhor clube canábico do Uruguai. O diretor Federico Oleiro e nosso anfitrião Marcos Alagorta já nos aguardavam. Em sintonia e chapadíssimos, eles explicaram:

“A regulamentação da lei de produção, distribuição e venda da maconha foi aprovada no final de 2014 e abriu os horizontes para este tipo de produção e clubes”.

Segundo os dois especialistas, os clubes têm de 15 a 45 sócios. Os associados podem adquirir 40 gramas por mês, ou 480 gramas ao ano. Os clubes não podem ter mais do que 99 pés de maconha. Os filiados pagam uma matrícula e mensalidades de US$ 100 a US$120.

Realizo uma densa expedição pelo clube. Federico me leva a sala das plantas da genética mágica.  Fico imerso naquele laboratório de belotas, plantas e florescimento. No roof do edifício, o ‘Merlin’ Federico aparece com um camarão de dimensões de uma lagosta, a belota premiada, a sedutora planta 24 quilates. Marcos ao final balbucia que a qualidade subiu muito. “Comparado ao ano passado, os exemplares desta Copa são melhores do que as que se pode fumar em Amsterdã, e estão à altura de qualquer dispensário da Califórnia”.

Assim caminha a humanidade!

Agradecimentos: Bem Bolado Brasil e Revista Tá Suave

 

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