Monte Kailash: a montanha mais sagrada do planeta fica no coração do Himalaia

Encarei o kora, a volta a pé ao redor da montanha, pelos mais de 50 km ao lado do meu filho: uma aventura de autoconhecimento

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Exatamente há oito anos estive no Tibet realizando uma jornada espiritual. Durante muito tempo planejei esta expedição de fazer o kora, a circumanbulação (a pé) ao redor da montanha mais sagrada do planeta: O Monte Kailash. Meu filho João, desde então, despertou e aguçou um interesse profundo sobre o Himalaia, espiritualidade, tatuagem, budismo tibetano e Kailash. Viajou comigo em 2011 pela Índia e Nepal. Em 2012, ele passou o ano estudando na Nova Zelândia e na volta tinha um sonho: Ir para o Kailash e conhecer o Tibet. Tomei a decisão de realizar esta proeza de retornar em 2014 depois de ele me dizer que: “Pai, nós todos somos seres espirituais vivendo uma experiência humana na terra né. Vamos?” Naquele período, foquei minha bússola para realizar este sonho, uma aventura transcultural e de autoconhecimento, unindo pai e filho nos confins do TIBET. DSC_7579

Montei o planejamento estratégico da nossa expedição e no mês de setembro partimos para Katmandu. Depois de alguns dias no Nepal, todas as autorizações, permissões e vistos para entrar no Tibet e ir ao Kailash foram entregues ao nosso guia, o Mister Sanjan. Nossa primeira parada depois de atravessar a fronteira, foi a cidade de Zhangmu, encravada nos contrafortes do himalaia. Nossos dias seguiam no fluxo da adaptação climática. Katmandu esta a 1.400 metros de altitude, logo depois de Zhangmu passamos dois dias no vilarejo de Nyalam (3.750m) fazendo nossa aclimatação. João carregava em sua mochila livros sobre o Kailash, degustava as informações e sempre estava atento e ligado em tudo. Tínhamos a oportunidade única para que, juntos, ao longo da jornada construíssemos um capítulo heroico e magistral de nossa relação congênita. O ano de 2014 foi o ano do cavalo de madeira, um dos mais auspiciosos e dinâmicos no calendário tibetano para se fazer o Kora ao redor do Kailash. Devido a este período auspicioso no ano do cavalo, uma circumambulação ao redor do Kailash equivale a 12 voltas e muita acumulação de méritos. A quantidade de peregrinos que encontrávamos ao longo da viagem era impressionante. Muitos chineses, indianos, russos e pouquíssimos europeus.52_tibet

Depois de 5 dias rasgando o platô tibetano, chegamos ao radiante e maravilhoso lago Manasarovar. Eu e meu filho borbulhávamos felicidade, mesmo com as extremas dificuldades do ar rarefeito, seguíamos esbanjando harmonia.53_tibet

No dia seguinte, chegamos em Darchen: porta de entrada e base para a peregrinação ao redor do Kailash. Acordamos cedinho e iniciamos nossa jornada. No início, o tempo estava fechado. Algumas horas, depois tudo se abriu e o Kailash se escancarou diante de nossos sentidos. Minha mente, coração e espírito se afinavam há mais de 5 mil metros de altitude. A união entre nos dois e o legado de pai para filho e de filho para pai transcendia. O homem é um ser histórico, mas não de maneira exclusiva. Nosso destino está ligado ao destino da Terra, e com certo grau de liberdade. O Kailash é o símbolo da natureza cósmica do ser humano. Ele é imponente, mas não ameaçador. O Topo, assemelha-se a uma cúpula, um peito feminino, redondo, suave, branco como a neve, e por tudo incitante e sedutor. Suscita admiração, respeito e reverência. Caminhávamos lado a lado de tibetanos que realizavam o kora fazendo prosternações infinitas. O circuito do Kailash é de 52 km. A maioria dos peregrinos atravessa a jornada em dois dias e meio pernoitando em tendas e guest-houses. Por todos os lados transbordam lendas, mitos, histórias e sagas. O aspecto maravilhoso da peregrinação é que o espaço vazio se faz visível, ou melhor, transparente. O vazio se preenche de pura luz, o espaço pleno da vacuidade.DSC_2401 2

O Kailash não é o limite e sim o centro. Para o peregrino, todos os estágios são finais. Quando você se dá conta de que cada passo poderia ser o último, tens a consciência de que cada passo é definitivo. Como toda a experiência última , esta peregrinação é inefável. Não é por falta de palavras, é porque esta além de qualquer descrição. A peregrinação pertence ao espirito, ao outro lado da razão. Como disse Ramana Maharshi: “Tem lugares como o Kailash que somente se pode ir a pessoa que esta predestinada. Não de outra maneira. Ir ao Kailash e retornar equivale a um novo nascimento”.

Agradecimentos: www.viajesnepal.com

Representação
O Kailash é objeto de adoração para os hindus, jainistas, budistas e Bonpos, isto é para 1 bilhão e 400 milhões de pessoas. Para os hindus, o Kailash Parbat representa o Monte Meru e morada do Deus Shiva e de sua consorte Parvati. Os jainistas chamam a montanha de Ashtapada e Rishabanatha (fundador do jainismo) vive em sua cume em estado de meditação. Os tibetanos veneram e chamam a montanha de Kang Rinpoche, a “Preciosa Joia das Neves”, residência de Chakrasamvara e Vajaravarahi.55_tibet

Primeiros ocidentais
O Kailash e o lago Manasarovar permaneceram desconhecidos para o mundo ocidental durante séculos. Os primeiros europeus que passaram pela região foram os missionários jesuítas Padre Ippolito Desideri e Manuel Freyre. No inverno de 1715, eles cruzaram o oeste tibetano, seguindo o curso do rio Tsangpo (Brahmaputra) até Lhasa. No caminho, passaram pelo lago Manasarovar e uma enigmática montanha escondida sob as nuvens. A montanha era o Kailash. Um século depois, o Kailash se tornou a peça chave de um quebra-cabeças geográfico que intrigava exploradores europeus. No começo de 1812, o inglês William Moorcroft com uma grande expedição despertou o interesse dos britânicos pela região. Desde então, aventureiros, caçadores de tesouros e amantes da natureza percorrem o Tibet à procura de mistérios entre vales, montanhas e nascentes de rios.60_tibet

O mais ousado e perseverante de todos foi Sven Hedin, cujas explorações levaram ao conhecimento do Ocidente, uma área de 65000 milhas quadradas desconhecidas do oeste tibetano. Em sua expedição de 1907 para a região do Kailas, Hedin descobriu a nascente do rio Indus e esclareceu as fontes de Brahmaputra e do Sutlej. Ele foi também o primeiro ocidental a percorrer o caminho dos peregrinos ao redor do Kailas. A conquista de Hedin foi acusada de exagerada em seu retorno a Europa em 1909. Mesmo assim, ele foi bem sucedido na resolução do mistério envolvendo os quatro rios. O Indus, o Sutlej, o Brahmaputra e o Karnali possuem suas nascentes nesta região inóspita dominado pelo onipotente Kailas. Na obra-prima “The Sacred Mountain”, o escritor John Snelling narra em detalhes às aventuras de muitos exploradores pela região.DSC_7292

Pilar do mundo
O monte Meru, aparece no coração da cosmologia religiosa asiática em diversas crenças e religiões. É o pivô central, enquanto a criação acontece em seu entorno. Para bilhões (hinduístas, budistas, jainistas e bonpas) a montanha é o pilar do mundo.

DSC_7320O monte Meru está inserido em diversos mitos e escrituras sagradas como sendo o Kailash. Uma descrição espetacular no Vishnu Purana texto hindu de 200 A.C. diz que :A montanha cósmica nasce a altura de 84.000 léguas no centro do universo, circundada por anéis concêntricos dos sete continentes e dos sete oceanos. As quatro faces da montanha são orientadas para as quatro direções. O leste é de cristal, o oeste de rubi, o sul é de lápis-lazúli e o norte é de ouro. O sol, a lua e as estrelas seguem seu curso a partir desse estonteante pivô central e suas múltiplas camadas de reinos do céu, terra e mundo subterrâneo que se espalham ao seu redor. Do seu topo, o sagrado rio Ganges cai do céu e se divide em quatro grandes rios que despeja água nos quatro cantos da Terra. Escrituras tibetanas falam dos quatro rios saindo da montanha. Possivelmente, há milhares de anos, esses rios cortavam o platô na região do Kailash. Peregrinos e exploradores devem ter retornado com histórias da grande montanha e de sua fonte do mundo, um conceito que viveu na lenda do Meru, mesmo depois que os fatos foram esquecidos. Séculos depois, os hindus passaram a venerar o Kailash. Assim fato e mito se uniram novamente.

DSC_2227A visão da montanha universal se espalhou por toda a Ásia, inspirando séculos de arte, arquitetura e literatura. O fascinante complexo de Angkor Wat no Camboja e o maravilhoso templo de Borobudur na ilha de Java são exemplos definitivos da concepção do Monte Meru.
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